Ela morreu

 Ela morreu deitada, com o queixo apontado para o teto, os olhos virados para o céu observando as estrelas, de braços cruzados, os pés juntos, as pálpebras fechadas e a última lágrima teimosa escorrendo pelo rosto. Havia pessoas ao redor; eram poucas, e olhavam para o relógio preocupadas com a hora em que o enterro ia acabar. Estavam com pressa, preocupadas com suas vidas enquanto a dela se ia em um último momento que logo apagariam da memória. Eram cúmplices, mas não sentiam culpa. Confiava neles, mas a traíram em um assassinato coletivo onde cada um tirou dela o que queria. Coitada. Era um Frankenstein de traumas e de medos. Cada um a apunhalou com um caco, tirou uma fração do seu sangue para suprir a própria vida, porque antes ela do que eles. E, se houvesse disputa no tribunal, não seria para achar o culpado, mas sim para discutir sobre quem iria ficar com mais um pedaço dos talentos dela enquanto ela sumia. Havia dado tudo de si, mas não era suficiente. De um jeito sorridente, ainda esperavam mais. Quando o relógio bateu meia-noite, a chuva começou a apertar e todos foram embora para suas vidas, enquanto aquela terminava. Em meio às lágrimas dos anjos e à ira de Deus, um milagre aconteceu, e ela levantou do caixão. Mas estava diferente: com outro olhar e um vazio imenso cobrindo o peito pela decepção que acabara de presenciar. Ela morreu. E morreu para que pudesse viver novamente.

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